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Quadrilhas Juninas – Reflexão que Nasce da Saudade

IOV  –  ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DE FOLCLORE E ARTES POPULARES

Há reflexões que nascem da crítica. Outras nascem da saudade.
E talvez essa seja uma das mais profundas para quem ama, vive e respeita a cultura popular brasileira: o que estão transformando as nossas quadrilhas juninas?

Não se trata de condenar a modernidade, nem de desmerecer a criatividade das novas gerações. A cultura é viva, mutável e sempre encontrará novos caminhos. Mas toda evolução precisa lembrar de onde veio. Porque quando a raiz enfraquece, a tradição deixa de ser memória viva e passa a ser apenas espetáculo.

Quem cresceu vivendo o verdadeiro espírito do São João sente falta de algo que vai muito além das coreografias. Sente falta da emoção simples. Das histórias contadas na dança. Do casamento matuto arrancando risos. Da rainha caipira que encantava pela delicadeza, pela representação simbólica da cultura popular e pelo brilho do olhar e não pela obrigação de executar movimentos acrobáticos quase impossíveis.

Hoje, muitas meninas deixam de sonhar em ocupar determinados destaques porque já não basta ter carisma, presença e amor pela tradição. Parece que é preciso ser atleta, ginasta ou contorcionista. E os brincantes? Muitos ficam pelo caminho porque não conseguem pagar figurinos caríssimos que transformaram o ato de brincar em algo cada vez mais distante da realidade do povo.

E talvez uma das mudanças mais dolorosas esteja também no som das quadrilhas. Nas músicas. Nas bandas.
Antes, bastavam alguns acordes de sanfona para o coração estremecer. Existia melodia. Existia poesia. Existia saudade antes mesmo da festa acabar. As músicas juninas contavam histórias, faziam o povo cantar junto, dançar junto, sentir junto.

Hoje, em muitos lugares, parece existir uma disputa para ver quem grita mais alto. São vozes exageradas, efeitos ensurdecedores, apresentações aceleradas onde quase não se consegue sentir a alma da música. Falta melodia. Falta emoção. Falta aquele som que abraçava o terreiro e fazia alguém fechar os olhos para lembrar da infância, da rua enfeitada, da fogueira acesa e da família reunida.

As músicas juninas estão desaparecendo aos poucos no meio de produções grandiosas que, muitas vezes, esquecem o principal: o sentimento.

As quadrilhas cresceram, ganharam luzes, cenários, tecnologia e grandes produções. E isso também tem seu valor. Mas, em meio a tanta grandiosidade, fica uma pergunta que insiste em ecoar no coração de muitos folcloristas e amantes das festas juninas: onde estão ficando as nossas origens?

Onde está a simplicidade bonita do arraial? Onde está o cheiro de povo? Onde estão os personagens, as tradições, os costumes e as histórias que fizeram da quadrilha junina uma das maiores manifestações do folclore brasileiro?

Talvez a grande reflexão não seja sobre impedir a modernidade. Porque ela faz parte do movimento natural da cultura. A verdadeira reflexão é: será que estamos conseguindo equilibrar evolução e identidade? Espetáculo e essência? Técnica e sentimento?

Quem viveu os antigos arraiais, quem ainda guarda na memória o som da sanfona atravessando a noite, as bandeirinhas coloridas dançando ao vento e o calor da fogueira reunindo famílias inteiras, às vezes apenas silencia… e pensa baixinho:
“Eu queria o meu São João de volta.”

E que fique claro: esta não é uma fala contra a evolução, contra os novos tempos ou contra a criatividade das quadrilhas juninas contemporâneas. Cada geração constrói sua forma de viver a cultura, e isso também merece respeito.

Esta é apenas uma reflexão sincera de alguém que ainda guarda no coração as memórias afetivas do São João tradicional, das músicas que emocionavam, das histórias contadas nas danças e da simplicidade que fazia a festa ser tão grandiosa.

Não quero criar polêmicas, divisões ou disputas entre o antigo e o moderno. Quero apenas provocar um olhar mais sensível sobre tudo o que estamos vivendo dentro das festas juninas brasileiras. Um chamado à reflexão coletiva para quem concorda, para quem discorda e, principalmente, para quem ainda acredita que é possível evoluir sem abandonar a essência.

Porque talvez o maior desafio da cultura popular não seja apenas continuar existindo.
É continuar existindo sem perder a alma.

Clerton Vieira

Presidente IOV Brasil – Pontão de Cultura

 

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